Casa antes de instituição
Beto insistia que o espaço precisava parecer um lar, não um equipamento. Daí a sala de convivência, a horta, a quadra, os espelhos de maquiagem, as cores nas paredes. O ambiente é parte do acolhimento.
Assistente social e ativista, Alberto Silva, o Beto, idealizou a Casa Florescer e esteve à frente da gestão desde o primeiro dia. Esta página é sobre o que ele construiu, e sobre o que segue de pé.
Até 2016, não existia no Brasil nenhum centro de acolhida institucional público voltado exclusivamente a mulheres trans e travestis. Havia albergues gerais, e havia mulheres trans que não conseguiam ficar neles.
Beto identificou essa lacuna e trabalhou para transformá-la em serviço. A Casa Florescer foi criada em parceria com a Prefeitura de São Paulo, através da SMADS, e iniciou suas atividades práticas em 7 de março de 2016, no Bom Retiro.
Não era um projeto-piloto simbólico. Eram 30 vagas, funcionamento 24 horas, equipe multidisciplinar e uma metodologia própria de acompanhamento, desenhada a partir do que a população trans e travesti precisava, não do que já existia no manual.
“Toda pessoa tem uma história, e toda história merece respeito. Quem está em situação de rua tem nome, não número. Aqui, a gente acolhe pessoas e as histórias que elas carregam.”
Rigor institucional e cuidado no mesmo gesto. É esse par que explica por que a Casa Florescer virou referência.
Beto insistia que o espaço precisava parecer um lar, não um equipamento. Daí a sala de convivência, a horta, a quadra, os espelhos de maquiagem, as cores nas paredes. O ambiente é parte do acolhimento.
Documento resgatado, nome retificado, matrícula na escola, carteira assinada. O acolhimento nunca foi um fim em si: era o começo de um caminho de acesso a direitos que haviam sido negados.
Assistentes sociais, psicóloga, orientadores socioeducativos, agentes operacionais, cozinha. Beto montou um time multidisciplinar e defendeu que trabalho de acolhimento exige formação e supervisão.
Nenhum serviço resolve tudo sozinho. A articulação com saúde, educação, trabalho, habitação, cultura e esporte foi construída caso a caso, e é o que sustenta a saída qualificada até hoje.
Números acumulados desde março de 2016 nas unidades I e II, sob a gestão conduzida por Beto Silva. Fonte: Casa Florescer / SMADS.
Em maio de 2026, Beto recebeu o prêmio Legado do Orgulho, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
No discurso, destacou a importância das ativistas que abriram caminho para a construção de políticas públicas voltadas à população trans, defendeu a continuidade dessas iniciativas e homenageou as mulheres acolhidas pela Casa Florescer.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, por meio da Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, reconheceu sua atuação como “um legado inestimável para a população LGBTQIA+, especialmente para as pessoas trans, cuja luta por reconhecimento, inclusão e respeito encontrou nele um aliado incansável”.
Beto esteve à frente da Casa Florescer desde a fundação. O que ele deixou não é uma lembrança: é uma estrutura em operação, com equipe formada, metodologia consolidada e mulheres saindo daqui com documento no nome certo e chave de casa nova.
A casa segue aberta, 24 horas por dia, no Bom Retiro. Segue acolhendo. E segue precisando de gente por perto.